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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Jürgen Habermas: Reconstrução dos aspectos da racionalidade após as críticas pós-modernas

Jürgen Habermas, filósofo, sociólogo e professor universitário. É um dos mais importantes pensadores da atualidade e considerado o legítimo herdeiro dos seus mestres. Dos mais importantes se destaca Theodor W. Adorno do qual foi assistente na Universidade de Frankfurt e ocupante da cátedra de Horkheimer. É filósofo alemão da segunda geração da Escola de Frankfurt e se coloca na tarefa de desenvolver uma teoria da racionalidade diante da crítica à modernidade. O objetivo da filosofia em Habermas, que considera a razão como o seu tema fundamental, consiste em estabelecer os atributos que caracterizam a ideia da razão. Para Habermas, que se beneficia do paradigma filosófico contemporâneo em que o tema da consciência é substituído pelo da linguagem, a razão manifesta-se historicamente e de forma linguística.

É precisamente a possibilidade de uma guinada para uma filosofia pragmática da linguagem que transfere o significado da verdade para o campo discursivo. Habermas, então, insistirá em defender que o seu sentido define-se, assim, pelo consenso e não por sua correspondência com o mundo. Segundo o autor, nós não podemos ter acesso à coisa-em-si como tentava admitir a tradição filosófica desde Platão a Kant, “no caso da verdade, o seu significado define-se no interior da própria ação comunicativa, como consenso. Consenso que se põe como uma tarefa infinita, um processo constante de sua realização” (DUTRA, 2005, p. 10). Desse modo, é o caráter pragmático e consensual da verdade que definirá a sua própria natureza. Portanto, a temática da razão remete-nos à questão da linguagem, aqui ela se torna a própria razão.

Segundo Habermas, a teoria crítica se contrapôs à racionalidade instrumental, mas em contrapartida ela não ofereceu uma conceituação clara da razão pretendida e por isso ela ficou incompleta. Nesse sentido é que ele se coloca na tarefa de buscar na contingência novos fundamentos para a teoria crítica. Essa tarefa o levará, portanto, ao tema da linguagem e à organização da teoria da ação comunicativa. Ele se abastece de diversos autores que tratam das questões da pragmática da linguagem para assim construir a sua concepção de racionalidade comunicativa em que o seu próprio conceito é explicitado por intermédio da reconstrução da pragmática. Segundo Mühl (2003, p. 168),a pragmática supera a visão tradicional do conhecimento de fundamentação ontológica e subjetivista. O conhecimento deixa-se de ser compreendido como a adequação do real ou a constituição da objetividade por uma adequada união da sensibilidade e do entendimento pela ação de uma subjetividade solipsista.

A pragmática atribui um papel central ao processo intersubjetivo de constituição dos conhecimentos, ela concebe que a linguagem não tem uma função designativa do conhecimento, ao contrário, é a constituidora do próprio saber. Diferente do pensamento tradicional, a pragmática considera que o pensamento não pode se libertar da ligação com a linguagem. Enquanto dimensão hermenêutica, ela é o fundo de toda e qualquer formação conceitual e de qualquer teoria. Em contraposição às condições do conhecimento humano fundamentado na essência das coisas ou na natureza, a pragmática aloca a pesquisa sobre as condições do conhecimento para a significação ou o sentido das expressões linguísticas que surgem a partir do uso da linguagem pelos indivíduos em interação no mundo (MÜHL, 2003).

Em Habermas a linguagem possui uma grandeza quase-transcendental, ao contrário do método kantiano de uma investigação a priori das condições e dos limites do conhecimento. O método habermasiano é o de reconstrução das condições do entendimento o que o influenciará na recusa a uma fundamentação última. O que ele pretende não é a prova de validade objetiva de nossos conceitos e objetos da experiência possível em geral, mas tornar plausível um conceito de razão comunicativa imanente ao uso da linguagem que é definida pelo telos do entendimento e do consenso. Para isso, no entanto, ele preocupa-se primeiro em constituir a sua própria teoria pragmática devido às limitações e ambigüidades constatadas em grande parte das teses introduzidas pela guinada linguística.

A definição para a pragmática pode ser pensada a partir da cooriginariedade dos conceitos de linguagem e entendimento. Para o autor, eles são conceitos que se explicitam mutuamente, pois o entendimento deve ser compreendido como um processo de obtenção de um acordo sendo imanente como telos da linguagem humana. A pragmática universal, segundo Habermas (2002), tem a função de identificar e reconstruir condições universais de possível compreensão mútua. Portanto, ele diz que “propusemos a atribuição do nome ‘pragmática universal’ ao programa de estudo que tem por objetivo reconstruir a base de validade universal do discurso” (HABERMAS, 2002, p. 15). Para responder a pergunta “como é possível a utilização da linguagem orientada ao entendimento?”, Habermas parte da ação comunicativa e procura as condições sobre as quais ela é possível. Segundo Dutra (2005, p. 42):

portanto, a pragmática procura identificar as condições de possibilidade de entendimento. Para cumprir esse objetivo, Habermas faz uso do método reconstrutivo, que torna explícito um saber pré-teorico implícito. É nesse saber pré-teórico que encontramos as condições de possibilidade do entendimento, da ação comunicativa. Mais que identificar e reconstruir tais condições, entendemos que a tarefa da pragmática é mostrar a necessidade e universalidade de tais condições.


Habermas expressa o seu objetivo em “Racionalidade e comunicação” de desenvolver a ideia de que qualquer pessoa que aja segundo uma atitude comunicativa deve, ao efetuar qualquer tipo de ato de falar, apresentar pretensões de validade universal e supor que estas possam ser entendidas. Desse modo, a própria ação estratégica, orientada à realização de fins e à manipulação de técnicas da natureza, é considerada por Habermas como derivada da ação orientada ao consenso. É desse modo em geral que o objetivo da pragmática será a análise dos elementos que caracterizam a própria ideia de razão que estará encarnada, segundo Dutra (2005), nos complexos da ação comunicativa. É a partir dessa possibilidade de reconstruir os fundamentos da racionalidade humana que é estabelecida a crítica ao modelo positivista e que guia nosso embasamento para repensar as pesquisas em Educação pelo método hermenêutico reconstrutivo.

Em “A lógica das ciências sociais”, Habermas desempenha a tarefa de estabelecer a oposição metodológica entre as ciências naturais e ciências sociais ou praxiológicas. Segundo Habermas (2009), nenhum sinal aponta para a possibilidade de que os modos de procedimento das ciências histórico-hermenêuticas sejam integrados ao modelo das ciências experimentais estritas, mesmo que analíticos reivindiquem as ciências que procedem hermeneuticamente para a ante-sala da ciência.

Habermas elabora uma conscientização histórica do dualismo das ciências que procedem de modo empírico-analítico e as que procedem pela elucidação hermenêutica. Segundo ele, enquanto as ciências da natureza se constituem segundo leis universais, as ciências humanas ou ciências da cultura se formam por meio da ligação de fatos a um sistema de valores. Ele afirma que “não apenas a escolha dos problemas, mas também a escolha do quadro teórico, no interior do qual eles são analisados, seria por fim determinado por ligações valorativas historicamente vigentes” (2009, p. 30). Em síntese, podemos dizer que essa é uma das massas de saberes transbordantes que, como diz Habermas, o positivismo precisa atribuir a si mesmo antes de poder vedar a si e às outras ciências certas dimensões abertas ao saber.


(Sousa, A. G. A hermenêutica de Habermas nas pesquisas em educação, 2010. Resumo da pesquisa disponível em: http://www.sbpcnet.org.br/livro/62ra/resumos/resumos/2814.htm)

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