Abdael Gaspar
Habermas explana aqui sobre a experiência comunicativa que relaciona "objeto" e o observador, dispondo os dois em um único contexto simbólico. Ele afirma que "a experiência comunicativa emerge, tal como o nome indica, de um contexto de interação que liga no mínimo dois sujeitos no quadro de intersubjetividade linguísticamente produzida do entendimento quanto a significações constantes" (2009, p. 148). E assim, essa experiência é medida pela interação dos dois, o sujeito e o objeto, em que um interfere ou distorce as respostas, ameaçando a objetividade. Um problema na formação da teoria surge daí: a teoria relaciona-se com condições da intersubjetividade da experiência que resultam da própria comunicação.
Segundo Habermas, o problema da compreensão de sentido ou permanece acidental para a metodologia das ciências praxeológicas - não tocando de maneira principal a lógica da pesquisa - ou ela possui efetivamente um peso tal que não se insere sem qualquer compulsão no modelo positivista das ciências experimentais rigorosas. Para o autor, ao abandonar a relação geralmente suposta entre "teorias e realidade", nós seriamos remetidos ao caminho tradicional do território do conhecimento que transcende o âmbito propriamente metodológico, o que para Habermas não nos ajuda a seguir a diante.
E assim é que a base empírica peculiar às teorias da ação deveria ser antes investigada previamente a partir do ponto de vista transcendental: a partir da pergunta por quais experiências são as condições sob as quais experiências comunicativas em geral se constituem. Desse modo, o que está em questão são as condições transcendentais da intersubjetividade, ou seja, a construção lógica do mundo da vida social que possui um valor conjuntural para a pesquisa. O mundo da vida é o campo de objeto da pesquisa e também se mostra como base para a própria pesquisa. Segundo Habermas na tradição é possível encontrar três abordagens para análise deste tipo.
1. A abordagem fenomenológica: conduz a uma investigação acerca da constituição da práxis vital cotidiana.
2. A abordagem linguística: centra-se em jogos de linguagem, que determina ao mesmo tempo formas de vida de maneira transcendental.
3. A abordagem hermenêutica: torna possível finalmente que concebamos as regras linguístico-transcendental do agir comunicativo a partir do contexto objetivo de uma tradição atuante e com isso já se implode o quadro lógico-transcendental.
No intuito de purificar a formação de teorias da problemática da compreensão de sentido, Habermas nos conduz a explanação sobre a possível mediação de fatos sociais. Ele segue a tentativa de transformar experiências sensoriais em dados por outra via que não a da experiência comunicativa. Ele questiona se o caminho de transformação não poderia ser, nas ciências praxeológicas, semelhantes ao da práxis. Isso porque ele afirma que não há experiência que não seja interpretada, nem na práxis vital cotidiana nem com maior razão ainda no quadro da experiência cientificamente organizada.
Seguindo essa pretensão Habermas menciona P. Lorenzen o qual esboçou o quadro transcendental para o campo de objetos da física sob a forma de uma protofísica. Em que todas as teorias físicas são formuladas de tal modo que as suas expressões se ligam direta ou indiretamente a um jogo de linguagem e, portanto, para cada teste, as indicações de medições podem ser derivadas da teoria. No entanto, nas ciências sócias esta continuidade não existe segundo Habermas. Nelas não há continuidade entre o quadro categorial, padrões de medida e base experimental.
Para Habermas a correspondência prévia entre base empírica e quadro analítico existente nas ciências praxeológicas é conduzido por outros jogos de linguagem, segundo ele, independentemente de operações de medida, por meio de interpretações da práxis de vida cotidiana corretamente colocada em jogo. E segue que, para Habermas, a formação conceitual sociológica articula-se imediatamente com as experiências comunicativas, que são estruturadas pré-cientificamente. As operações de medida precisam se adequar ulteriormente a um acordo transcendental que se formou na autocompreensão cultural de mudanças da vida social sem qualquer consideração por uma práxis de mediação, ou seja, sem qualquer consideração da disponibilização técnica. E justifica assim o não poder haver uma protofísica das ciências praxeológicas.
continua...
Nenhum comentário:
Postar um comentário