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sábado, 27 de novembro de 2010

A abordagem Fenomenológica (Part. 1)

Abdael Gaspar

Habermas explana aqui sobre a experiência comunicativa que relaciona "objeto" e o observador, dispondo os dois em um único contexto simbólico. Ele afirma que "a experiência comunicativa emerge, tal como o nome indica, de um contexto de interação que liga no mínimo dois sujeitos no quadro de intersubjetividade linguísticamente produzida do entendimento quanto a significações constantes" (2009, p. 148). E assim, essa experiência é medida pela interação dos dois, o sujeito e o objeto, em que um interfere ou distorce as respostas, ameaçando a objetividade. Um problema na formação da teoria surge daí: a teoria relaciona-se com condições da intersubjetividade da experiência que resultam da própria comunicação.

Segundo Habermas, o problema da compreensão de sentido ou permanece acidental para a metodologia das ciências praxeológicas - não tocando de maneira principal a lógica da pesquisa - ou ela possui efetivamente um peso tal que não se insere sem qualquer compulsão no modelo positivista das ciências experimentais rigorosas. Para o autor, ao abandonar a relação geralmente suposta entre "teorias e realidade", nós seriamos remetidos ao caminho tradicional do território do conhecimento que transcende o âmbito propriamente metodológico, o que para Habermas não nos ajuda a seguir a diante.

E assim é que a base empírica peculiar às teorias da ação deveria ser antes investigada previamente a partir do ponto de vista transcendental: a partir da pergunta por quais experiências são as condições sob as quais experiências comunicativas em geral se constituem. Desse modo, o que está em questão são as condições transcendentais da intersubjetividade, ou seja, a construção lógica do mundo da vida social que possui um valor conjuntural para a pesquisa. O mundo da vida é o campo de objeto da pesquisa e também se mostra como base para a própria pesquisa. Segundo Habermas na tradição é possível encontrar três abordagens para análise deste tipo.

1. A abordagem fenomenológica: conduz a uma investigação acerca da constituição da práxis vital cotidiana.

2. A abordagem linguística: centra-se em jogos de linguagem, que determina ao mesmo tempo formas de vida de maneira transcendental.

3. A abordagem hermenêutica: torna possível finalmente que concebamos as regras linguístico-transcendental do agir comunicativo a partir do contexto objetivo de uma tradição atuante e com isso já se implode o quadro lógico-transcendental.


No intuito de purificar a formação de teorias da problemática da compreensão de sentido, Habermas nos conduz a explanação sobre a possível mediação de fatos sociais. Ele segue a tentativa de transformar experiências sensoriais em dados por outra via que não a da experiência comunicativa. Ele questiona se o caminho de transformação não poderia ser, nas ciências praxeológicas, semelhantes ao da práxis. Isso porque ele afirma que não há experiência que não seja interpretada, nem na práxis vital cotidiana nem com maior razão ainda no quadro da experiência cientificamente organizada.

Seguindo essa pretensão Habermas menciona P. Lorenzen o qual esboçou o quadro transcendental para o campo de objetos da física sob a forma de uma protofísica. Em que todas as teorias físicas são formuladas de tal modo que as suas expressões se ligam direta ou indiretamente a um jogo de linguagem e, portanto, para cada teste, as indicações de medições podem ser derivadas da teoria. No entanto, nas ciências sócias esta continuidade não existe segundo Habermas. Nelas não há continuidade entre o quadro categorial, padrões de medida e base experimental.

Para Habermas a correspondência prévia entre base empírica e quadro analítico existente nas ciências praxeológicas é conduzido por outros jogos de linguagem, segundo ele, independentemente de operações de medida, por meio de interpretações da práxis de vida cotidiana corretamente colocada em jogo. E segue que, para Habermas, a formação conceitual sociológica articula-se imediatamente com as experiências comunicativas, que são estruturadas pré-cientificamente. As operações de medida precisam se adequar ulteriormente a um acordo transcendental que se formou na autocompreensão cultural de mudanças da vida social sem qualquer consideração por uma práxis de mediação, ou seja, sem qualquer consideração da disponibilização técnica. E justifica assim o não poder haver uma protofísica das ciências praxeológicas.

continua...

domingo, 21 de novembro de 2010

Jürgen Habermas: Sobre a problemática da compreensão de sentido nas ciências empírico-analíticas do agir

Resenha de "A lógica das ciências sociais", part. 3, p. 143 - Abdael Gaspar

Nessa terceira parte de "a lógica das ciências sociais" Habermas adentra a questão da problemática da compreensão de sentido segundo o ponto de vista metodológico, que assim se torna quando o que está em questão é a apresentação de conteúdos significativos legados pela tradição. Segundo Habermas só é desprovida de problematicidade a compreensão de sentido simbólico que nós mesmos produzimos - proposições matemáticas ou teorias rigorosas - e quando esta procede normativo-analiticamente.

Habermas tem como partida uma metodologia que leva em consideração os pontos de vista dos instrumentalistas - ou instrumentalismo - que faz restrição positivista da metodologia à análise da linguagem: o pragmatismo, que sempre concebeu regras metodológicas como práxis de pesquisa. Por isso, o quadro referencial da lógica cientifica é o contexto comunicativo e a comunidade de experimentação do pesquisador, ou seja, uma rede de interação e operações que se estende sobre o solo de uma intersubjetividade. Desse modo, a metodologia tem a tarefa de refletir sobre as regras da práxis de pesquisa, seguindo a sua própria intenção.

Segundo Habermas a epistemologia pragmática não acentua apenas o momento descritivo em contraposição ao construtivo, mas também se livra do preconceito positivista sobre o status das regras pelas quais a práxis da pesquisa se orienta. Por ser liberal esta abordagem torna visualizada a problemática da compreensão de sentido. Tal problemática no pensar habermasiano é portal que a metodologia precisa atravessar.

Continua...
Ver: Abordagem Fenomenológica, Abordagem Linguística e Hermenêutica

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Jürgen Habermas: Reconstrução dos aspectos da racionalidade após as críticas pós-modernas

Jürgen Habermas, filósofo, sociólogo e professor universitário. É um dos mais importantes pensadores da atualidade e considerado o legítimo herdeiro dos seus mestres. Dos mais importantes se destaca Theodor W. Adorno do qual foi assistente na Universidade de Frankfurt e ocupante da cátedra de Horkheimer. É filósofo alemão da segunda geração da Escola de Frankfurt e se coloca na tarefa de desenvolver uma teoria da racionalidade diante da crítica à modernidade. O objetivo da filosofia em Habermas, que considera a razão como o seu tema fundamental, consiste em estabelecer os atributos que caracterizam a ideia da razão. Para Habermas, que se beneficia do paradigma filosófico contemporâneo em que o tema da consciência é substituído pelo da linguagem, a razão manifesta-se historicamente e de forma linguística.

É precisamente a possibilidade de uma guinada para uma filosofia pragmática da linguagem que transfere o significado da verdade para o campo discursivo. Habermas, então, insistirá em defender que o seu sentido define-se, assim, pelo consenso e não por sua correspondência com o mundo. Segundo o autor, nós não podemos ter acesso à coisa-em-si como tentava admitir a tradição filosófica desde Platão a Kant, “no caso da verdade, o seu significado define-se no interior da própria ação comunicativa, como consenso. Consenso que se põe como uma tarefa infinita, um processo constante de sua realização” (DUTRA, 2005, p. 10). Desse modo, é o caráter pragmático e consensual da verdade que definirá a sua própria natureza. Portanto, a temática da razão remete-nos à questão da linguagem, aqui ela se torna a própria razão.

Segundo Habermas, a teoria crítica se contrapôs à racionalidade instrumental, mas em contrapartida ela não ofereceu uma conceituação clara da razão pretendida e por isso ela ficou incompleta. Nesse sentido é que ele se coloca na tarefa de buscar na contingência novos fundamentos para a teoria crítica. Essa tarefa o levará, portanto, ao tema da linguagem e à organização da teoria da ação comunicativa. Ele se abastece de diversos autores que tratam das questões da pragmática da linguagem para assim construir a sua concepção de racionalidade comunicativa em que o seu próprio conceito é explicitado por intermédio da reconstrução da pragmática. Segundo Mühl (2003, p. 168),a pragmática supera a visão tradicional do conhecimento de fundamentação ontológica e subjetivista. O conhecimento deixa-se de ser compreendido como a adequação do real ou a constituição da objetividade por uma adequada união da sensibilidade e do entendimento pela ação de uma subjetividade solipsista.

A pragmática atribui um papel central ao processo intersubjetivo de constituição dos conhecimentos, ela concebe que a linguagem não tem uma função designativa do conhecimento, ao contrário, é a constituidora do próprio saber. Diferente do pensamento tradicional, a pragmática considera que o pensamento não pode se libertar da ligação com a linguagem. Enquanto dimensão hermenêutica, ela é o fundo de toda e qualquer formação conceitual e de qualquer teoria. Em contraposição às condições do conhecimento humano fundamentado na essência das coisas ou na natureza, a pragmática aloca a pesquisa sobre as condições do conhecimento para a significação ou o sentido das expressões linguísticas que surgem a partir do uso da linguagem pelos indivíduos em interação no mundo (MÜHL, 2003).

Em Habermas a linguagem possui uma grandeza quase-transcendental, ao contrário do método kantiano de uma investigação a priori das condições e dos limites do conhecimento. O método habermasiano é o de reconstrução das condições do entendimento o que o influenciará na recusa a uma fundamentação última. O que ele pretende não é a prova de validade objetiva de nossos conceitos e objetos da experiência possível em geral, mas tornar plausível um conceito de razão comunicativa imanente ao uso da linguagem que é definida pelo telos do entendimento e do consenso. Para isso, no entanto, ele preocupa-se primeiro em constituir a sua própria teoria pragmática devido às limitações e ambigüidades constatadas em grande parte das teses introduzidas pela guinada linguística.

A definição para a pragmática pode ser pensada a partir da cooriginariedade dos conceitos de linguagem e entendimento. Para o autor, eles são conceitos que se explicitam mutuamente, pois o entendimento deve ser compreendido como um processo de obtenção de um acordo sendo imanente como telos da linguagem humana. A pragmática universal, segundo Habermas (2002), tem a função de identificar e reconstruir condições universais de possível compreensão mútua. Portanto, ele diz que “propusemos a atribuição do nome ‘pragmática universal’ ao programa de estudo que tem por objetivo reconstruir a base de validade universal do discurso” (HABERMAS, 2002, p. 15). Para responder a pergunta “como é possível a utilização da linguagem orientada ao entendimento?”, Habermas parte da ação comunicativa e procura as condições sobre as quais ela é possível. Segundo Dutra (2005, p. 42):

portanto, a pragmática procura identificar as condições de possibilidade de entendimento. Para cumprir esse objetivo, Habermas faz uso do método reconstrutivo, que torna explícito um saber pré-teorico implícito. É nesse saber pré-teórico que encontramos as condições de possibilidade do entendimento, da ação comunicativa. Mais que identificar e reconstruir tais condições, entendemos que a tarefa da pragmática é mostrar a necessidade e universalidade de tais condições.


Habermas expressa o seu objetivo em “Racionalidade e comunicação” de desenvolver a ideia de que qualquer pessoa que aja segundo uma atitude comunicativa deve, ao efetuar qualquer tipo de ato de falar, apresentar pretensões de validade universal e supor que estas possam ser entendidas. Desse modo, a própria ação estratégica, orientada à realização de fins e à manipulação de técnicas da natureza, é considerada por Habermas como derivada da ação orientada ao consenso. É desse modo em geral que o objetivo da pragmática será a análise dos elementos que caracterizam a própria ideia de razão que estará encarnada, segundo Dutra (2005), nos complexos da ação comunicativa. É a partir dessa possibilidade de reconstruir os fundamentos da racionalidade humana que é estabelecida a crítica ao modelo positivista e que guia nosso embasamento para repensar as pesquisas em Educação pelo método hermenêutico reconstrutivo.

Em “A lógica das ciências sociais”, Habermas desempenha a tarefa de estabelecer a oposição metodológica entre as ciências naturais e ciências sociais ou praxiológicas. Segundo Habermas (2009), nenhum sinal aponta para a possibilidade de que os modos de procedimento das ciências histórico-hermenêuticas sejam integrados ao modelo das ciências experimentais estritas, mesmo que analíticos reivindiquem as ciências que procedem hermeneuticamente para a ante-sala da ciência.

Habermas elabora uma conscientização histórica do dualismo das ciências que procedem de modo empírico-analítico e as que procedem pela elucidação hermenêutica. Segundo ele, enquanto as ciências da natureza se constituem segundo leis universais, as ciências humanas ou ciências da cultura se formam por meio da ligação de fatos a um sistema de valores. Ele afirma que “não apenas a escolha dos problemas, mas também a escolha do quadro teórico, no interior do qual eles são analisados, seria por fim determinado por ligações valorativas historicamente vigentes” (2009, p. 30). Em síntese, podemos dizer que essa é uma das massas de saberes transbordantes que, como diz Habermas, o positivismo precisa atribuir a si mesmo antes de poder vedar a si e às outras ciências certas dimensões abertas ao saber.


(Sousa, A. G. A hermenêutica de Habermas nas pesquisas em educação, 2010. Resumo da pesquisa disponível em: http://www.sbpcnet.org.br/livro/62ra/resumos/resumos/2814.htm)
Paixão é sempre assim: tão nova e tão velha. Se você não a incendiá-la hoje, amanhã tem tudo para ser um dia melhor. Porque hoje pode ser melhor que acabe logo. A felicidade é um esperar, ir e vir, imaginar que não chega a lugar algum.

Abdael Gaspar
Nem o sol está somente fora de nós nem a razão está somente dentro de nós. (Em Ser e Tempo - Martin Heidegger)